sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Carta de alguns imigrantes albaneses na Grécia

Já agora, fotos giras em: http://vice.typepad.com/vice_magazine/2008/12/greece---inside.html

Estes dias também são nossos!

Postado a 19/12/2008

Na sequência do assassinato de Alexis Grigoropoulos temos vivido uma insurreição sem precedentes, um furioso desabafo que parece não acabar. A liderar esta revolta, aparentemente, estão os estudantes – que, com uma inesgotável paixão e uma calorosa espontaneidade reverteram toda a situação. Não se pode parar algo que não se controla, algo que é organizado espontaneamente e segundo termos que não se compreende. Esta é a beleza da insurreição. Os estudantes do secundário fazem história e deixam a outros a possibilidade de a escreverem e classificarem ideologicamente. As ruas, o incentivo, a paixão pertencem-lhes.

No quadro da mobilização geral, e com as manifestações do secundário como motor, verifica-se uma participação em massa da segunda geração de migrantes, bem como de muitos refugiados. Poucos refugiados vêm para as ruas, com uma organização limitada, mas com a espontaneidade e o ímpeto a marcarem a sua mobilização. Presentemente, eles são a facção mais militante dos estrangeiros a viver na Grécia. De qualquer das maneiras, eles têm pouco a perder.

Os filhos dos imigrantes mobilizam-se em massa e dinamicamente, através das secundárias e das acções universitárias, assim como através das organizações de esquerda e de extrema-esquerda. São a parte mais integrada da comunidade migrante, a mais corajosa. Ao contrário dos seus pais, que vieram de cabeça baixa, como se mendigassem uma fatia de pão. São parte da sociedade grega, já que nunca conheceram outra. Não imploram por coisa alguma, exigem ser iguais aos seus colegas gregos. Iguais em direitos, nas ruas, nos sonhos.

Para nós, emigrantes politicamente organizados, este é um segundo Novembro francês. Nunca tivemos ilusões que quando a raiva das pessoas transbordasse seríamos capazes de a direccionar em qualquer sentido. Apesar das lutas que tomámos durante todos estes anos nunca conseguimos atingir uma resposta em massa como esta. Agora é tempo da rua falar: o grito ensurdecedor é pelos 18 anos de violência, repressão, exploração e humilhação. Estes dias são nossos também.

Estes dias são pelas centenas de migrantes e refugiados que foram assassinados nas fronteiras, nas esquadras de polícia, nos locais de trabalho. São por aqueles assassinados por polícias ou "cidadãos preocupados". São por aqueles assassinados por se atreverem a atravessar a fronteira, trabalhando até à morte, por não baixarem a cabeça, ou por nada. São para Gramos Palusi, Luan Bertelina, Edison Yahai, Tony Onuoha, Abdurahim Edriz, Modaser Mohamed Ashtraf e por tantos outros que não esquecemos.

Estes dias são pela violência policial de todos os dias que permanece sem punição e sem resposta. São pelas humilhações na fronteira e nos ainda existentes centros de detenção para migrantes e refugiados. São pela gritante injustiça dos tribunais gregos, pelos migrantes e refugiados injustamente presos, pela justiça que nos é negada. Mesmo agora, nos dias e nas noites da revolta, os migrantes pagam um preço elevado – os ataques da extrema-direita e da polícia, as deportações e as sentenças de prisão que os tribunais concedem com amor cristão. A nós, os infiéis.

Estes dias são pela contínua e ininterrupta exploração, desde há 18 anos para cá. São pelas lutas que não foram esquecidas: nas enseadas de Volos, nas obras olímpicas, na cidade de Amaliada. São pelo trabalho forçado e pelo sangue dos nossos pais, pelo trabalho informal, pelos turnos sem fim. São pelos depósitos e pelos selos adesivos, pelas contribuições sociais que pagámos e que nunca nos serão reconhecidas. São pela corrida aos papéis em que iremos participar para o resto das nossas vidas, como se fossem bilhetes de lotaria.

Estes dias são pelo preço que temos de pagar por simplesmente existir, por respirar. São por todos os momentos em que rangemos os dentes, são pelos insultos a que somos sujeitos, pelas derrotas que nos são inculpadas. São por todas as vezes em que não reagimos e estivemos sozinhos, pois as nossas mortes e a nossa raiva não cabiam em modelos pré-determinados, não traziam votos, não vendiam notícias de primeira página.
Estes dias pertencem a todos os marginalizados, os excluídos, às pessoas com os nomes difíceis e com as histórias desconhecidas. Pertencem aos que morrem todos os dias no Mar Egeu e no rio Evros, aos assassinados na fronteira ou na rua central de Atenas; pertencem aos Roma em Zefyri, aos drogados de Eksarhia. Estes dias pertencem aos putos da rua Mesollogiou, aos estudantes não integrados e não controlados. Obrigado Alexis, estes dias pertencem-nos a todos!

18 Anos de raiva silenciosa são demais
Para as ruas, pela solidariedade e dignidade!
Não esquecemos e não esqueceremos – estes dias são teus também

Traduzido de On the Greek Riots