quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Tensão social. Em Portugal, a esquerda é o travão à violência!!!!



Especialistas prevêem mais contestação em 2010 devido à crise, mas afastam cenário de violência na rua

Manifestações violentas na Grécia e na Letónia, raptos de empresários em França, perseguição aos imigrantes no Reino Unido - poderá a crise económica levar a uma escalada da tensão social violenta também em Portugal, onde o desemprego atinge o valor mais alto desde que há registos e a redução do défice público exige mais austeridade? Pouco provável, respondem sociólogos e historiadores, sobretudo devido a um factor que desafia a sabedoria convencional: os partidos de esquerda e as organizações sindicais, os promotores da luta social no país, são ao mesmo tempo o principal travão à escalada da confrontação social violenta em Portugal.



"A luta social no país é enquadrada e controlada por organizações que defendem radicalidade nas propostas e têm interesse em mostrar força, mas preferem não causar desordem", afirma ao i o historiador Rui Ramos, para quem o receio de violência social em 2010 é exagerado. "São organizações que defendem sobretudo o que existe, os direitos adquiridos, e que preferem acções legais 'policiadas' de perto pelas suas estruturas tradicionalmente muito organizadas".

O Bloco de Esquerda e, principalmente, o Partido Comunista Português - que controla a maior central sindical portuguesa, a CGTP - são forças políticas de protesto e mobilização social, mas que estão muito instaladas na máquina administrativa do Estado através dos sindicatos. Controlam professores (a Fenprof) e a generalidade dos funcionários públicos (a Frente Comum), num país em que "ao contrário do que se passa na Grécia ou no Reino Unido, há muito pouca multiplicidade de grupos radicais isolados e dispersos, fora da esfera dos interesses do Estado", realça Rui Ramos.

Nas acções de rua que chegam a juntar mais de 100 mil pessoas - como as manifestações de professores este ano e em 2008 - os sindicatos "estão atentos ao que se passa, para que nada que tenha a ver com violência radical se misture e distorça o objectivo", aponta Deolinda Machado, da CGTP. A intersindical trabalha de perto com as forças de segurança e a organização tenta filtrar e controlar as situações mais radicais.. "É evidente que não podemos impedir tudo", aponta Machado. A hostilidade contra Vital Moreira, o principal candidato do PS às eleições europeias, foi um exemplo pontual de exageros em acções normalmente controladas.

A insatisfação não se transforma em violência - "que existiu, por exemplo, em 1975 à esquerda e à direita, afastando a imagem dos brandos costumes", lembra Rui Ramos -, sendo antes institucionalizada. "Os dois partidos de esquerda têm uma importância fundamental para canalizar politicamente as frustrações dos cidadãos perante a crise económica", aponta Boaventura Sousa Santos.

O sociólogo da Universidade de Coimbra admite ser difícil prever o que se vai passar em Portugal, mas afasta para já um cenário de violência. Além do papel dos sindicatos e partidos à esquerda, Sousa Santos destaca outro factor fundamental que trava sobretudo a mobilização dos jovens. "O que vai aguentando a sociedade portuguesa é a rede informal de ajuda da família: não é por acaso que Portugal tem o maior índice de país que pagam a primeira prestação da casa aos filhos", aponta.. Esta rede, aliada à fragilidade laboral e à fraca politização dos jovens, tem desencorajado até agora a formação de um movimento estudantil forte à escala nacional.

Vem aí mais contestação

Mesmo sem violência e extremismo é certo que os protestos vão subir em tom e frequência em Portugal, à semelhança do que vai acontecendo na Europa. E aqui a esquerda já é motor. "Temos a esquerda mais expressiva e organizada da UE, com 20% dos votos, e há que não esquecer que no anterior governo tivemos as maiores manifestações desde o fim do PREC [1975]", sublinha o sociólogo Manuel Villaverde Cabral. "Com um peso destes, quando um governo se decidir a avançar com medidas austeras e necessárias, tal como na Grécia, haverá uma mobilização à qual a população irá aderir."

Especialistas em finanças públicas como Silva Lopes, Medina Carreia ou Eduardo Catroga do Amaral defendem o congelamento da despesa com salários da função pública no próximo ano e o corte noutros gastos do Estado. Na Grécia, onde o novo governo socialista enfrentou ontem a primeira greve geral, está na calha o congelamento e a uma onda de privatizações, como armas para tentar estabilizar a dívida pública galopante..


de http://www.ionline.pt/