terça-feira, 25 de maio de 2010

[Portugal] Crônica da feira do livro anarquista de Lisboa

A Feira do Livro Anarquista de Lisboa constrói-se ao longo de um ano inteiro. Foi assim também com esta terceira edição, que ocorreu no último fim de semana, só que desta vez fez-se sentir bem "a pressão que os meios estatais e midiáticos andam a exercer para criminalizar e isolar qualquer grupo ou iniciativa anti-autoritária" em Portugal.

O evento realizou-se num espaço diferente do que tinha sido planejado. Desafiando a solidariedade e o apoio-mútuo. Desafiando a cooperação e a auto-organização. Tomando a Praça, o Jardim... as Ruas!

Cumprindo integralmente a programação prevista, num local manifestadamente pequeno para conter toda a pujança de debates, apresentações de livros, passagem de filmes e as inúmeras bancas, com uma afluência de público que ultrapassou largamente a do ano anterior.



As paredes dos corredores do local da Feira travestidas das memórias de outras lutas, feiras... através de belos cartazes vindo de lugares distantes, sem fronteiras!

Esta Feira do Livro Anarquista foi organizada por um grupo diversificado de jovens anarquistas, mulheres e homens de corpo inteiro. Com entusiasmo e evidente êxito pariram esta mostra viva de quem se mantêm a lutar sem fazer consentimentos. Seja tomando a Praça, onde se fez um debate, se partilhou um jantar e se realizou o concerto previsto, seja tomando o Jardim onde aconteceram dois debates e apresentação de livros. Reconquistando o espaço público que é nosso. Apelando àqueles e àquelas que sintam afinidade em relação a uma postura de confronto e rebeldia perante este sistema nestes tempos assumidamente repressivos para quem está efetivamente em luta contra a exploração e a miséria.

Marcando presenças na Feira, bancas de distribuidoras de Madri, a Klinamen e o Grupo Editorial Pepitas de Calabaza, da distribuidora Al Margem de Valência, uma banca das Juventudes Anarquistas de Léon, todas da Espanha, o CIRA (Centro Internacional de Pesquisas Sobre Anarquismo) de Marseille, da França, uma distribuidora do País Basco, a Ahtez, assim como outras de Portugal.

Presentes companheiros e companheiras que vieram de Madri, Barcelona, País Basco, Valência, Reino Unido, Bélgica, França... De Portugal vieram compas de Coimbra, Porto, Setúbal... Cumplicidades já estão no ar e ficou a vontade de fazer uma feira do livro anarquista no Porto.

Do balanço dos debates ficou a idéia da importância de abordar o antimilitarismo, aprofundá-lo, pô-lo em ação. Também a questão do erotismo, do amor livre foi bem discutida, ficando no ar a importância da autenticidade na expressão e prática erótica, a libertação de tabus, mas também o respeito pela individualidade de cada uma e cada um. Sem pressões e com base na igualdade de gêneros, na sua diversidade... O(s) machismo(s) já longe... A certeza de que o amor livre é muito mais aquele que é dado/recebido numa base de igualdade e não tanto (e só) o sexo liberto (mas também). Abordado por diversas pessoas a questão do "namoro" e a pressão do grupo no sentido da censura a essa posição... Opiniões diferentes.

Também as refeições cozinhadas com carinho, coloridas e recheadas por risos, cumplicidades e abraços de quem se reencontra a cada ano... E os livros, acariciados, desfolhados, cheirados... Livros anarquistas!

E os cães? Eles não podiam entrar desta vez... Mas ao tomarmos as ruas, a praça e o jardim, lá apareceram com os “donos” e as “donas” também e, assim , em tão "hermosa companhia" nos deliciamos a ouvir histórias, testemunhos, divergências de opinião, pontos de vista acalorados, risos, lágrimas nos olhos da emoção... A paixão da anarquia!

Anarquista.

Comunicado da Feira do Livro Anarquista

A nossa solidariedade vai para aqueles que se mantêm a lutar sem fazerem concessões, nestes momentos em que os poderosos tratam de instaurar o medo.

A Feira do Livro Anarquista vai começar agora, num espaço diferente do que tínhamos planejado, e gostaríamos de reforçar o convite àqueles que sintam afinidade em relação a uma postura de confronto e rebeldia perante este sistema.

Enquanto iniciativa declaradamente anarquista, a Feira do Livro Anarquista também está a sentir a pressão que os meios estatais e midiáticos andam a exercer para criminalizar e isolar qualquer grupo ou iniciativa anti-autoritária.

São tempos assumidamente repressivos para quem está assumidamente em luta contra a exploração e a miséria.

Seja pela presença da polícia a impedir concertos ou por artigos de jornalistas que, de uma maneira já tão corriqueira, se lembram de fazer acusações a mais uns quantos, estamos conscientes de que nos tocou a nós, como tantas vezes tocou a quem luta de forma autônoma, seja em bairros pobres, seja quem não se limita apenas aos modelos de protesto "autorizados".

Apesar das diferenças nas posições e idéias de cada um/a, entre as pessoas que fazemos a feira do livro partilhamos uma descrença total neste sistema político, governamental e social.

Não queremos este mundo tal como está organizado, com as suas classes sociais e esta suposta paz, as hierarquias e o poder onipresentes, os racismos e segregações, estes centros urbanos e a destruição da natureza...

É à volta de temas como estes que nos queremos juntar, num encontro que tem como ponto de partida os livros, porque continuamos a dar importância à palavra escrita como ferramenta de comunicação e ataque!

Alguns indivíduos que constroem a F.L.A.

Sexta-feira, 21 de maio de 2010

agência de notícias anarquistas-ana

no arco-íris
os sonhos coloridos
a chuva leva

Núbia Parente